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Stand by me

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 18.01.08

Rob Reiner inspirado. Um filme poético com uma atmosfera única, personagens verosímeis e o ritmo das descobertas na adolescência. A amizade, o grupo, os seus heróis e ídolos, os rituais de passagem para a autonomia, para um olhar mais realista sobre o mundo e as pessoas.

É também de uma simplicidade desconcertante, esta aventura com mistérios a desvendar, riscos a correr… a caminhada no desconhecido, acampar no meio da floresta, as conversas de rapazes… E quando falo de uma atmosfera única é porque é uma sorte isso acontecer em cinema. É uma espécie de claridade, tonalidade, que não se consegue definir.

Vemos as personagens crescer, autonomizar-se, sair do casulo familiar e escolher o seu próprio caminho. A adolescência como uma passagem necessária, um ensaio, às vezes doloroso, outras maravilhoso, para a fase seguinte, da autonomia e afirmação pessoal. E o grupo, os amigos, são os companheiros eleitos durante essa transição.

As feridas emocionais, as fragilidades, largar uma pele e ensaiar outra. Aceitar os erros dos adultos, as suas imperfeições. E desistir de lhes querer agradar, como um dos rapazes em relação ao pai, que acaba por se afirmar, a sua identidade única, com o apoio do amigo, aqui um River Phoenix no seu melhor papel e também no mais comovente.

De todos os Rob Reiner que vi, este é de longe, de muito longe, o seu melhor!

O tema “Stand by me” do Jack Nitzche voltou a estar na berra, gravado de novo e, no vídeo, podemos ver os actores River Phoenix e Wil Wheaton a cantar ao seu lado, no meio de outros jovens, num revivalismo desses anos 50, a época a que o filme se refere.

É muito provável que Stand by me se tenha tornado um filme de culto nos EUA. Não me admirava nada…

 

 

Obs.: Vi entretanto no "Biography Channel" um documentário sobre Stephen King, o autor da novela que serve de base ao argumento do filme. Nele ficamos a saber que este "Stand by me" do Rob Reiner conseguiu captar, de forma fiel, esse período mágico da sua adolescência: após ter visto o filme pela primeira vez, Stephen King pediu para ficar na sala a recompor-se da emoção.Tal o impacto que o filme lhe causara! A tal atmosfera sempre era real, pelo menos para o Stephen King adolescente.Pois é, o tal milagre que às vezes acontece em Cinema!

 

 

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publicado às 16:04

The Terminal

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 04.01.08

Spielberg de novo com um olhar mais fresco e solto, quase o olhar desses primeiros anos, em que brinca com a câmara e connosco. Em que se debruça sobre a condição humana. Em que segue os passos de alguns mestres com o afecto de um aluno brilhante. Com o prazer de um rapazinho. É assim que eu o imagino atrás da câmara neste The Terminal.

Depois de várias peripécias e inúmeros obstáculos, começamos a ver o lado inventivo e criativo, o imenso manancial da nossa estranha espécie, condensado neste homem que se vê de repente como unacceptable.

De novo aqui dois mundos em confronto, o oficial, do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, da Segurança Interna,do outro o indivíduo e a sua própria sobrevivência. De um lado as imposições rígidas e acéfalas, do outro a criatividade, os neurónios a funcionar. De um lado a falta de sensibilidade e de empatia, do outro a capacidade de dar a volta à desgraça e ao azar.

Há mesmo duas cenas que exemplificam isto na perfeição. Logo no início, a entrevista verdadeiramente estúpida do burocrata do aeroporto. Aqui Navorski ainda não domina o inglês e utiliza as poucas palavras que sabe para responder às perguntas burocráticas, yes, New York, keep the change, Ramada Inn eos nomes de uma rua e de uma ponte. Verdadeiramente risível a completa ausência de comunicação nesta situação caricata. Aqui pensei em Chaplin, sobretudo quando o burocrata pega no seu lanche para exemplificar a situação no país de Navorski, a Krakozhia, e como isso o transformara num apátrida de um dia para o outro.

Outra, quando já o nosso Navorski vive neste terminal há uns meses e um outro passageiro, igualmente de um país de Leste e que por azar fez escala naquele aeroporto, vindo do Canadá, quer evitar que lhe confisquem os remédios para o seu pai doente. O nosso Navorski é chamado como tradutor. Mas como traduzir o desespero deste passageiro para burocratas que lhe querem ficar com os frascos? Como traduzir a vida de um pai amado para linguagem de impressos e de leis estúpidas? Como traduzir a própria vida de pessoas reais para mentes formatadas? Navorski consegue-o, depois de uma situação pungente, o passageiro a implorar de joelhos e a ser manietado pelos seguranças. Há uma luzinha numa falha linguística, de uma troca de palavras, de “pai” para “bode”. É que Navorski já aprendeu, nesta altura do campeonato, as minudências de mais uma lei estúpida: só são confiscados os remédios para pessoas, se forem para animais podem seguir. Há aqui um rasgo filosófico, quase nos lembra Camus… O passageiro vem agradecer ao nosso Navorski e aqui temos a humanidade inteira naquele abraço, a capacidade de empatia e de gratidão, de sacrifício também, porque Navorski viu aumentada a hostilidade do burocrata. Mas deu-lhe a volta! E isso também lhe dá dignidade e o respeito dos seus novos amigos. E estes novos amigos já são quase todos os funcionários do aeroporto e uma hospedeira de bordo por quem se apaixona.

Spielberg acaba por nos mostrar que a humanidade está para além das leis estúpidas, das fronteiras impostas, isto é, enquanto houver inteligência e criatividade, neurónios humanos vivos!

Nova Iorque representa uma assinatura de um saxofonista para o nosso Navorski, do seu amado jazz, e amado pelo seu amado pai. Ele faria o mesmo por mim, tinha dito à amiga. E pelo caminho tocou as vidas de muitas pessoas reais, as mesmas que se vêm despedir, que o acompanham até à porta. Como uma grande família. É impossível não ver Capra aqui a sorrir-nos…

I’m going home… diz o nosso Navorski já no yellow cab.

Em The Terminal vejo o verdadeiro cinema. Está lá o essencial. Misto documentário misto poema, linguagem metafórica e filosófica, diálogos depurados, inteligência, criatividade, humor. Vejo Chaplin, Jacques Tati, Capra, Wyler, John Ford… Vejo o grande amor ao cinema. E vejo a magia de Spielberg, a sua frescura dos tempos iniciais, o seu lado rapazinho a brincar com a câmara. Uma força da Natureza. Um talento único.

 

 

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publicado às 16:30


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